Ferrugem Asiática da Soja: Como controlar e quais os melhores fungicidas?

Tempo de leitura: 9 min

Escrito por Edu Junius
em 09/01/2021

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A ferrugem asiática é uma doença severa causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, presente em todos os estados brasileiros produtores de soja, que ataca principalmente as folhas da soja causando a desfolha precoce.

Seu dano diminui a área fotossintética ativa da planta que acarreta diretamente no processo de formação de grãos pela planta diminuindo sua produtividade.

A primeira ocorrência de ferrugem no Brasil foi registrada em 2001 nos estados do Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul, tornando-se uma das principais doenças da soja até hoje.

Danos causado pela ferrugem

Para se ter uma noção do prejuízo que esse fungo pode causar, a perda de rendimento em uma lavoura comercial de soja já chegou em 90% (possível), entretanto, a realidade das lavouras de soja brasileira mostra que as perdas (reais) pela ferrugem estão na casa de 30% a 50% de redução da produtividade.

O nível de dano causado pela ferrugem-asiática vai depender do estádio fenológico que a cultura da soja se encontra, das condições climáticas, do nível de resistência ou tolerância e ciclo da cultivar utilizada.

Quanto mais cedo a ferrugem incidir na cultura mais severo será seus danos.

Sintomas de ferrugem na soja

Os primeiros sintomas da ferrugem são pequenas pontuações que variam de 1 a 2 mm de diâmetro, e que tem uma coloração mais escura que o tecido sadio da folha, com lesão de coloração esverdeada a cinza-esverdeada.

As primeiras lesões podem ser visíveis entre quatro a cinco dias após a inoculação, posteriormente ocorre a formação de protuberância que recebe o nome de urédias, sendo essa a estrutura de reprodução do fungo.

Progressivamente as urédias adquirem coloração castanho clara a castanho escura, se rompem e ocorre a liberação dos uredósporos que pode ser facilmente carregado pelo vento.

Os sintomas da ferrugem são mais visíveis a partir da fase de florescimento pleno (fase R2).

Fonte: Bayer

Entendendo a ferrugem e as condições favoráveis para seu desenvolvimento

O fungo causador da ferrugem é considerado biotrófico, ou seja, depende nutricionalmente dos tecidos vivos de outro hospedeiro para extrair os nutrientes essenciais para sua sobrevivência.

A doença é considerada policíclica, quando ocorre vários ciclos da doença em um único ciclo do hospedeiro, no nosso caso, a soja.

Os primeiros sintomas da ferrugem podem ocorrer em qualquer fase de desenvolvimento da soja e em qualquer parte da planta.

Entretanto, a maior fase de incidência da ferrugem é quando o dossel da planta se fecha e, geralmente, o local de incidência é no baixeiro da planta.

Nessa fase de dossel fechado a radiação UV (ultravioleta) e os raios solares que são deletérios ao fungo não consegue mais alcançar o fungo no baixeiro da planta, atrelado a isso, há um aumento da umidade o que propicia um microclima favorável para o desenvolvimento do patógeno.

A temperatura ideal para o desenvolvimento do fungo Phakopsora pachyrhizi varia entre 15º a 25ºC.

Além disso, o sucesso da infecção desse fungo depende da disponibilidade de molhamento na superfície da folha, chuvas frequentes durante o desenvolvimento da doença também estão associadas com epidemias mais severas.

A doença pode ocorrer antes do fechamento do dossel da lavoura?

Sim, há chances de isso acontecer quando existe uma grande quantidade de inóculos no momento em que a soja é semeada, principalmente quando áreas próximas da propriedade em questão estão em fase mais adiantada de desenvolvimento da cultura ou quando acontecesse uma sucessão de semeadura de soja e os inóculos ainda não desapareceram do local.

Resumindo…

Planta sadia + Sombreamento + Umidade + Molhamento da Folha = Ambiente perfeito para a doença se instalar e se reproduzir.

Ciclo biológico da ferrugem asiática da soja causada por Phakopsora pachyrhizi (Reis e Carmona, 2005 citado por Reis et al., 2006a). 

Estratégias de Manejo para a Ferrugem Asiática da Soja

Vazio Sanitário

O vazio sanitário é uma medida legislativa adotada pelas Secretarias de Agricultura de vários estados brasileiros que determina a erradicação de plantas vivas de soja no período de 60 a 90 dias, evitando assim a sobrevivência do fungo P. pachyrhizi durante a entressafra, para atrasar a ocorrência da doença na safra.

O período de vazio varia de estado para estado, e até mesmo dentro de um mesmo estado, como pode ser observado na imagem abaixo:

Vazio sanitário de acordo com cada estados brasileiro e Paraguai.

Escape

O escape é uma técnica realizada com o objetivo de fugir da presença do patógeno quando as condições ambientais estão mais favoráveis ao seu desenvolvimento.

A estratégia aqui é semear cultivares de soja precoce assim que a janela do plantio se abre, fugindo do momento em que há a maior ocorrência de inóculo nas lavouras.

Semeaduras realizadas logo após o período de vazio sanitário tendem a sofrer uma pressão menor de ataque do fungo já que o momento de maior pressão do fungo nas lavouras vai casar com o momento de desenvolvimento final da soja para quem semeou logo após o fechamento da janela de vazio sanitário.

Já em áreas em que a soja é semeada tardiamente ocorre uma maior presença de inóculos vindas das áreas semeadas mais cedo, já que o fungo inicia sua multiplicação nas primeiras semeaduras e se dissemina pelo vento para áreas e regiões vizinhas.

Segundo o site do Consórcio Antiferrugem as primeiras ocorrências da ferrugem em lavouras comerciais de soja estão entre os meses de novembro, dezembro e em alguns estados somente em janeiro.

Se semeada no início da janela de plantio, à soja nessa época estaria entre a fase de formação de grãos ou até mesmo pronta para a colheita.

O potencial de dano da ferrugem reduz quanto mais tardio for o seu ataque na cultura.

Consequentemente, a quantidade de aplicações de fungicidas para controlar a ferrugem também é ser reduzida.

Utilização de cultivares com gene de resistência

Usar cultivares resistentes é uma técnica de manejo recomendado junto ao controle químico…

Sendo uma ferramenta importante para todo o programa de combate a ferrugem, pois, reduz a pressão de seleção de resistência do fungo ao fungicida.

A resistência genética é do tipo incompleta, e não torna a planta imune, mas retarda o avanço da doença no campo, pois limita o crescimento e reprodução do fungo nas folhas de soja.

A diferença entre as cultivares de soja suscetíveis e as cultivares de soja resistentes está no tipo de lesão que o fungo causa nas plantas (Bromfield; Hartwig, 1980).

Cultivares suscetíveis apresentam lesões TAN = lesões de coloração marrom claro e que produz grande quantidade de uredosporos, causando um rápido aumento do número de lesões nas folhas, causando amarelecimento e desfolha prematura das plantas.

Cultivares resistentes apresentam lesões RB = de coloração marrom-avermelhada, são maiores que as lesões TAN, entretanto, produzem pouco ou nenhum uredosporo, isso vai depender do gene e, por terem seu desenvolvimento limitado pela reação de resistência da planta, não causam amarelecimento e queda de folhas de forma tão intensa quando comparadas às lesões TAN em cultivares suscetíveis.

Lesões em cultivares de soja não resistente e resistente a ferrugem asiática da soja
Foto: Cláudia Vieira Godoy

Um número limitado de cultivares com genes de resistência encontra-se disponível para o produtor, por diferentes programas de melhoramento (ex.: BRS 511, BRS 7280RR, BRS 531, TMG 7061 IPRO, TMG 7062IPRO, TMG 7063IPRO, TMG 7067IPRO, TMG 7260 IPRO, TMG 7262 RR, TMG 7363 RR, entre outras cultivares)

Monitoramento da lavoura de soja

O monitoramento periódico é fundamental para um bom controle da ferrugem asiática da soja, somente com o monitoramento constante será possível identificar a presença da doença na lavoura logo em sua fase inicial de desenvolvimento e buscar estratégias e soluções que vão diminuir o impacto que a ferrugem na cultura da soja.

Vale lembrar que é importante sempre fazer a análise do terço médio e inferior da planta de soja para saber se há ou não a presença do patógeno, visto que, o terço superior está sob ação do melhor fungicida para a ferrugem asiática da soja: os raios ultravioletas.

Manejo químico para a ferrugem

Ainda hoje é o principal método de manejo utilizado para se controlar a ferrugem!

É claro, que não pode ser o único, o Manejo Integrado de Doenças é o que garantirá o sucesso para o controle da ferrugem na lavoura de soja!

O fungicida por si só não fará milagre depois que a doença estiver instalada na cultura, o uso do fungicida tem que ser visto com a finalidade de redução de inóculo da doença buscando sempre manter baixa a quantidade de inóculos da doença na lavoura.

Além disso, fungicidas que antes controlavam muito bem a ferrugem estão perdendo seu poder de ação no fungo, como é o caso dos fungicidas de sítio-específicos que vêm perdendo sua eficiência em decorrência da resistência do fungo.

Nos últimos anos, houve um declínio na eficiência dos fungicidas devido a um grande número de aplicações seguidas de um mesmo fungicida ocasionando uma série de mutações tem se acumulado no genoma do fungo.

Perda de eficiência de fungicidas para o fungo da ferrugem asiática da soja
Fonte: adaptado de Godoy et al. (2018a).

Nesse contexto, o controle químico com fungicidas é recomendado preventivamente ou no início do aparecimento dos sintomas .

A aplicação preventiva vem ganhando força e muitos adeptos, e deve ser levado em conta a presença do fungo na região, idade da planta e condição climática favorável, a logística de aplicação (disponibilidade de equipamentos e tamanho da propriedade), a presença de outras doenças e o custo do controle.

A aplicação preventiva deve ser feita logo nas primeiras fases vegetativas da soja (V4-V5), seguido de aplicações com intervalos de 14 a 15 dias.

Essa estratégia tem mostrado resultados bastantes satisfatórios!

Uma boa estratégia para a primeira aplicação (preventiva) é usar fungicidas de sítios-específicos que além de mais baratos tem o potencial de permanecer mais tempo agindo sobre a folha de soja, e nas demais aplicações realizar uma mistura entre fungicidas de sítios-específicos + fungicidas multissítios para aumentar a eficiência do controle do fungo.

Segurar a primeira aplicação e aplicar tardiamente pode não ser uma boa opção!

Já que o tratamento de semente com fungicidas tem uma eficácia nos dez primeiros dias de cultura no campo.

Além disso, quanto mais tardio for realizada a primeira aplicação do fungicida, mais folhas a planta de soja tem e mais difícil fica para o fungicida chegar nas folhas do baixeiro, ficando essas folhas desprotegidas com o fungo.

Importante ressaltar que as folhas do baixeiro representam cerca de 20 a 25% de toda a produtividade e que cada trifólio vale dinheiro!

No Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários – Agrofit, disponível no site do Mapa, são encontrados mais de 74 fungicidas comerciais registrados para controle do fungo P. pachyrhizi.

Fungicidas que em sua grande maioria são formados pela combinação entre ingredientes ativos de fungicidas de sítios-específicos; ou a combinação de fungicidas de sítios-específicos com fungicidas multissítios; ou puramente fungicidas multissítios isolados como é o caso do mancozebe, oxicloreto de cobre e clorotalonil.

Ingredientes ativos recomendados para a ferrugem asiática da soja
Fonte: Agrofit (c2003).

Um estudo realizado durante a safra 19/20 entre diferentes instituições e coordenado pela Embrapa, mostrou a porcentagem de controle da ferrugem asiática da soja para diferentes tratamentos com mistura entre ingredientes ativos, e o tratamento que apresentou maior porcentagem de controle em relação a testemunha foi a mistura entre (pic+cipr) p.c = Previnil + clorotalonil na dose de 60 + 24 e 1080 g i.a./ha, apresentando um nível de controle de 80%, confira no gráfico abaixo:

Principais tratamentos para controlar a ferrugem asiática da soja

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